quarta-feira, 15 de abril de 2009

Juri

A FECO - Associação de Cartoonistas, da qual faço parte, e a Amnistia Internacional estão a organizar um programa para comemorar o Dia da Liberdade de Imprensa! Vai ser no dia 3 de Maio, em princípio na Casa do Artista (a confirmar). Vai haver uma tertúlia para se debaterem estas temáticas da liberdade de expressão, uma exposição, um catálogo e talvez caricatura ao vivo para animar a festa. O slogan do evento “Liberdade é um risco” foi engendrado e muito bem, pelo Manuel Freire (esse mesmo da Pedra Filosofal, também membro da FECO).

Fiz este boneco para o acontecimento baseado no tema “liberdade de imprensa” apesar de ter mais a ver com a “liberdade doméstica”. O lápis azul faz a ligação à imprensa. Tudo isto é muito bonito mas para este boneco ver a luz do dia e estar patente no catálogo e na exposição terá de passar pela “censura” do juri.

Ora bem sobre os juris dos concursos de cartoons em que tenho participado… de uma maneira geral… na maior parte dos casos… como é que eu hei-de pôr isto de uma maneira objectiva… SÃO ABAIXO DE CÃO!!! São piores que os porteiros de discotecas, que os árbitros de futebol, que os polícias de trânsito… estão no fim da cadeia alimentar da minha consideração.

Há juris que deviam ser apedrejados, vergastados, torturados, fuzilados, cortados aos bocados e distribuídos em postas pelos crocodilos. Com grande pena minha dos animais que tiverem de ingerir carne tão rija e sensaborona.

Estas divagações a quente em relação aos juris… e para não ser enigmático à Octávio Machado… há que dizer os bois pelos nomes… devem-se ao facto do desenho que enviei para o World Press Cartoon (Obama) não ter sido contemplado nem para o catálogo nem para a exposição desse grande evento.

Em vez de incentivarem o produto nacional, preferem gastar o dinheiro dos contribuintes nos bonecos dos Egípcios, Fenícios ou Cartagineses.

Ele há cá cada lobby… vou-te contar!

terça-feira, 7 de abril de 2009

A Crise

A crise chega a todos e nem a literatura infantil se safou. Houve rescisões de contratos em série nalgumas das histórias mais famosas da nossa infância. Foram momentos dramáticos vividos por estes personagens que trabalhavam juntos há séculos. O anão que foi despedido está inconsolável.

Fiz este cartoon para a edição deste ano do Porto Cartoon 2009 que tem como tema “As Crises”. É a primeira vez que participo neste Festival. O prémio é aliciante, metade em dinheiro, metade em garrafas de Vinho do Porto. Deve ir parar às mãos de um enteado qualquer da organização.

Em relação a esta crise não sei o que dizer. Parece que é pior do que as anteriores. É indiferente para Portugal, estamos em crise desde 1143. Só sei que os restaurantes continuam cheios, os centros comerciais a abarrotar e o cinema, o teatro e a ópera sempre lotados. Mas estamos em crise.

Falta-me a parte do cérebro com o departamento da economia. Não consigo perceber absolutamente nada do assunto nem que frite os poucos neurónios que me restam. Nem com um batalhão de economistas à minha volta cheios de gráficos e explicações eu ia lá. Mais facilmente me entenderia com um chinês do que com um economista a falar de Spreads, Euribors, Hedge Funds, Defaults, Subprimes e afins. É equivalente ao discurso de um técnico informático a explicar o que se passa com o computador.

Uma coisa é certa, esta crise tem as suas vantagens. Este tema é um óptimo desbloqueador de conversas. Nem sei do que é que as pessoas conversariam se não fosse a crise. Foi um óptimo motivo para me aproximar de muitas pessoas com quem de outra maneira não teria tema de conversa. A crise abriu-me imensas portas para novas relações.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

António de Oliveira Salazar

O Ser Humano, como se sabe, não prima pela perfeição. É um produto defeituoso que veio ao mundo cheio de problemas por resolver. É uma criatura incompleta altamente vulnerável, é uma obra inacabada… enfim já perceberam.

Uma das avarias mais evidentes no indivíduo é a questão da memória. Rapidamente nos esquecemos das desgraças que nos aconteceram. Pior do que isso, adulteramos o passado com paninhos quentes e transformamos a desventura numa história mais decorosa.

Um bom exemplo de que o chip da memória está danificado é o fenómeno Salazar. De repente transformou-se numa figura simpática de quem toda a gente quer ser amiga. Ganhou o concurso do “Melhor Português de Todos os Tempos”, escrevem-se livros sobre ele como nunca (Enquanto Dormia, os Amores de Salazar, As Férias de Salazar, As Comidas Preferidas de Salazar, A Lingerie predilecta de Salazar, etc.), aparece em séries de televisão convertido em garanhão (por amor de Deus!) e até tem página no Facebook. Só faltam as t-shirts tipo Che Guevara para ser um icone pop à escala mundial!

Este boneco saiu em 2007 na já extinta Magazine – Grande Informação juntamente com o texto que segue de seguida.

Salazar

Ai Salazar... Salazar! Faz bem repetir este nome. Ajuda a ultrapassar o trauma. Já passaram mais de trinta anos e ainda há muita gente que acorda a meio da noite, a berrar: “Não! Salazar! Nãããããão! Conseguiremos algum dia livrar-nos deste fantasma?
Ai Salazar... Salazar! Mais vale parar com esta brincadeira antes que algum ex-PIDE se lembre de me cortar o pio.
Como é que este apelido, tão escasso na lista telefónica de Lisboa, ainda perturba tanta gente? Como é que este nome de ditador Sul Americano, ainda se tem de pronunciar baixinho? Apetece dizer calma! Morreu há muito tempo, já não vai fazer mal a ninguém. Mas este espectro que ainda nos afecta a todos deve-se ao facto de Salazar ter sido um pai para nós durante quarenta anos. Um pai à moda antiga, em que os filhos se tinham que vergar e beijar a mão. E como em todas as relações de filiação haviam os filhos cumpridores, bajuladores e preferidos, que dispunham de todas as regalias e os filhos rebeldes que eram desprezados, encarcerados, torturados e inclusivamente mortos.
Este parentesco até começou muito bem. Ao princípio Salazar era o menino bonito do Vaticano e punha em prática a célebre máxima “Deus, Pátria e Família”. Estava genuínamente convencido saber o que era melhor para os seus fifis. Pôs o país na ordem, era admirado e respeitado. Se tivesse democratizado o regime na altura teria ganho as eleições nas calmas. Mas mesmo em ditadura, manteve-se anos e anos no poder com o consentimento da população. O problema foi não ter conseguido acompanhar os sinais dos tempos. O Mundo estava em mudança e este “brilhante” estadista não deu por isso. Aliás deu por isso, que de parvo não tinha nada, mas preferiu trancar o país a sete chaves. Ainda hoje estamos a pagar essa factura.
Goste-se ou não do Salazar, temos de admitir que foi uma figura marcante. A verdade é que nenhum ser humano o derrubou. Esse papel coube a uma cadeira. E nem depois de se ter estatelado no chão tiveram coragem de lhe dizer que já não governava. Ainda hoje está muito presente na nossa vida. Basta-nos ir a uma repartição de finanças para sentirmos na pele a sua herança. A mesquinhez, o derrotismo, a nostalgia e o fatalismo que caracterizam o nosso povo também fazem parte do seu legado. Não nos livramos dele assim tão facilmente. É preciso mais tempo. O tempo cura tudo e esse mesmo tempo joga a favor de Salazar.
A minha teoria é que todos estamos cheios de saudades dele. Os de direita por nostalgia dos bons velhos tempos e os de esquerda por falta de um bode expiatório à altura.

Se estivéssemos no tempo do Estado Novo este texto seria obviamente censurado. Não tanto pela mensagem mas principalmente pela fraca qualidade literária. Nem tudo era mau naquele tempo.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Ao vivo

Qualquer caricaturista que se preze tem de se fazer à estrada, ou seja tem de ir para a rua fazer caricatura ao vivo. Esta modalidade está para os caricaturistas como os concertos ao vivo estão para os músicos, sem rede e sem escapatória. Ao vivo não há truques de photoshop nem é possível fazer playback.
É muito mais fácil ficar sentadinho em casa no estirador a fazer calmamente os bonecos, sem a pressão do tempo, da luz, dos olheiros, das correntes de ar, da cadeira indecente, da perna dormente e das expectativas da pessoa de carne e osso que está à nossa frente.
Os pilotos de avião têm de fazer horas de vôo. Os caricaturistas têm de fazer horas de caricatura ao vivo para ganharem calo. Recomendo vivamente aos potenciais futuros caricaturistas e aos que estão no activo mas que não praticam, que arrisquem e façam o maior número possível de caricaturas com seres humanos vivos.
Quem sabe se um dia, com esta crise que anda por aí, não tenha que ir para a rua ganhar o pão que o diabo amassou para sustentar a família. É sempre bom ter na manga um recurso circense qualquer, seja malabarismo, seja apagar fogo com a boca, seja fazer de homem estátua, seja caricatura.
A minha primeira vez foi em 2001, numa festa da caricatura em Vila Real. Ninguém se esquece da primeira vez. As minhas primeiras vítimas foram um grupo de velhotes vila realenses que tiveram imensa paciência para com a minha inexperiência.
Desde então, sempre que tenho oportunidade, faço caricatura ao vivo. Não sou um especialista, não é o meu habitat natural, sou mais de estúdio, mas o meu traço só tem a ganhar com estas investidas.
O que serve de bitola para avaliar uma boa caricatura é o riso do modelo, é a prova dos nove da caricatura ao vivo, sendo a gargalhada histérica o objectivo máximo. Há excelentes caricaturistas que conseguem facilmente provocar esse êxtase. Numa primeira fase só conseguia arrancar sorrisos amarelos, hoje em dia já consigo uns sorrisos com umas palmadinhas nas costas à mistura, mas o que pretendo mesmo é um dia atingir a gargalhada mortal como a anedota dos Monty Python's.
A banda desenhada, o cartoon e a ilustração são artes solitárias, o autor fica isolado do mundo durante imenso tempo e inevitavelmente ganha tiques e manias de quem vive longe do mundo na sua gruta. A vantagem da caricatura é esta possibilidade de contacto humano que nos obriga a voltar à terra. Além de que temos o feedback do nosso trabalho logo ali na hora.
Se és jovem, se andas descontente e se tens alguma queda para a bonecada, tenta a tua sorte na caricatura.

A Caricatura oferece uma carreira profissional estável, com possibilidades de ascensão e formação contínua, havendo uma enorme valorização da componente humana.

A Caricatura oferece boas condições de habitabilidade, alimentação, cuidados com a saúde e integração no espírito de grupo, bem como um conjunto de medidas que permitem uma fácil integração no mercado de trabalho após o período de serviço.

Alista-te, junta-te aos caricaturistas e faz desta forma de arte o teu modus vivendi!

quarta-feira, 18 de março de 2009

Varsóvia

Cá estou de volta à minha terra Natal com a barriga cheia de cultura polaca, pierogis, vodkas, Chopins, Karois Voitilas e de insurreições contra os alemães.
Só agora consegui actualizar o blogue com o relato da estadia em Varsóvia. É uma hora de diferença, ainda estou com o jetlag.
Isto é um blogue sobre bonecada por isso vou passar rapidamente a parte turística. Quem quiser ver reportagens mais pormenorizadas sobre esta viagem pode ir aos blogues dos meus companheiros de expedição, Osvlado Macedo de Sousa humorgrafe.blogspot.com ou do Carlovski Laranjeira carloslaranjeiracartoon.blogspot.com. Nesta imagem iamos a caminho da universidade, o Osvaldo ia dar uma palestra sobre cartoon e caricatura enquanto eu e o Carlos Laranjeira faziamos caricaturas.
Estes são alunos universitários de um curso de 5 anos de português que assistiram à palestra. Todos eles falam e escrevem português fluentemente. Pergunto o que é que vão fazer com este curso?!?!?! Foi nesta aula que fizémos a primeira sessão de caricaturas. Escolhi uma professora que não deve ter gostado da caricatura que lhe fiz. Saiu mais cedo da aula e voltou sem o desenho. Provavelmente transformou o boneco em ripas numa daquelas máquinas de destruição de documentos.
Mais tarde foi a vez da inauguração da nossa exposição no Centrum Towicka. Disseram-nos que iam aparecer vários canais da Televisão Polaca para cobrir o acontecimento. A única que apareceu para uma entrevista foi uma menina da rádio universitária.


O povo polaco é muito simpático e muito organizado. São parecidos com os portugueses... na simpatia. Têm o gosto e o interesse pelas artes e pelos vistos pela caricatura também. Levei comigo uma caricatura do Papa João Paulo II que se revelou ser um bom cartão de visita. A própria directora da Exposição abraçou-se a mim tipo agradecimento pelo boneco. Depois contei-lhe que um caricaturista português tinha feito um Papa com um preservativo no nariz e a senhora ia-se engasgando com o vinho português que estava a beber.


Fizeram uns postais para a exposição com os nossos bonecos para oferecerem às visitas. Mais um gesto simpático da organização. Estas caricaturas que espalhei por este post são alguns exemplos da minha contribuição para a exposição. Sei que esta mesma bonecada vai andar a passear pela Polónia.
No dia seguinte fomos a uma escola secundária, mais palestras e sessões de caricatura ao vivo. Este é o director da escola que nos convidou para o seu gabinete para lhe fazermos a sua caricatura. Era simpático, ofereceu-nos chupas, mas ainda tinha alguns tiques do antigo regime ditatorial. Todos os alunos deste liceu eram obrigados a andar de pantufas para não estragar o chão de madeira.
Esta sala era enorme e estava bastante composta. Todos estes alunos estavam de pantufas.
Aqui estava a explicar como se faz uma caricatura. Lá atrás está uma aluna a tentar a sua sorte nesta arte com outra aluna como modelo. Desenhava muito bem. Houve outro aluno que se ofereceu para fazer uma caricatura sob a minha orientação. Eu tentava explicar-lhe em inglês que devia fazer um traço mais solto e saiu-me um "soltei-te yourself!"
A gastronomia era formidável. Aqui estávamos a brindar antecipadamente ao sucesso da viagem. Sempre que houve palhaçada mais embaraçosa faziamo-nos passar por espanhois. Os Nuestro Hermanos é que ficavam queimados. Em primeiro plano o incansável anfitrião do Instituto Camões, o professor José Carlos. Lá atrás está a Margarida, mulher do Osvaldo, veio em turismo e esteve sempre connosco.

Mais uma sessão de caricatura, desta vez numa livraria de Comics de um amigo polaco do Zé Carlos. Condições miseráveis, havia pouca luz. Valeu aquela garrafa de licor que estávamos a beber com 95% de teor alcoólico. Era o que dizia no rótulo.
Aqui já é o festival de Banda Desenhada de Varsóvia, o equivalente ao nosso da Amadora. Os nossos nomes estão patentes nestes cartazes.
Trabalhámos que nem uns mouros.
Os polacos até não são difíceis de caricaturar, têm caras cheias de atributos com elementos que ajudam a identificar, tipo chapéus, óculos, pêras, bijuteria, etc.
As mulheres são geralmente mais dificeis de caricaturar e também mais susceptíveis. E quanto mais bonitas mais difíceis como foi o caso das polacas. Todas parecem umas princesas, desde a mulher do lixo à mulher que limpa as latrinas.
Outro elemento importante foi a nossa tradutora: Dorota Kwinta, também do Instituto Camões e também professora universitária de português. Aqui está a traduzir mais uma palestra do Osvaldo sobre a caricatura e o cartoon desportivo em Portugal.
E ao 5º dia lá descansámos depois de uma epopeia de caricaturas. A nossa amizade sobreviveu a este teste (entre todos os elementos da comitiva). O Vodka ajudou!

terça-feira, 10 de março de 2009

Digressão à Polónia

Estou de partida numa digressão à Polónia, para promover uma exposição de caricaturas da malta da bola, que está incluída nos Encontros de Banda Desenhada de Varsóvia, patrocionada pelo Instituto Camões e organizada pela Humorgrafe. Esta mesma colecção de bonecos esteve o ano passado exposta no Festival de BD da Amadora e pelos vistos teve saída na Polónia uma vez que foi transladada para lá. Obviamente que o mérito deve-se ao Dr. Osvaldo de Macedo de Sousa (Humorgrafe) que conseguiu esta proeza através dos seus conhecimentos. Esta é a imagem do cartaz promocional da nossa exposição. Está em polaco, espero que não nos estejam a chamar palhaços.

Esta exposição é só de caricaturas das figuras do futebol que fizémos para a colecção dos livros das Caretas. Somos 3 autores, eu, o Carlos Larajeira (Record/Correio da Manhã) e o Ricardo Galvão (Bola). Tudo começou em 2004 quando fizémos o primeiro livro, o Euro de Caretas baseado numa ideia peregrina do jornalista da SportTv Luís Miguel Pereira. O Editor ficou de tal maneira espantado com as vendas que depois desse livro já fizémos mais 4 e estamos a tratar do 5º.
Sempre houve o estigma em Portugal de que a caricatura é uma arte menor, de rua e que "não vende". Nunca concordei com esse rótulo. A prova de que afinal a "caricatura vende" são os números desta colecção das Caretas. O facto de estarem associadas ao futebol também ajudou, mas não deixam de ser caricaturas e confirma-se que as pessoas normalmente gostam e compram livros com este tipo de bonecada.
Depois do Euro de Caretas fizémos o Caretas do Mundial, o Caretas do Benfica, o Caretas do Sporting (o meu preferido) e o Caretas do Porto. Neste momento estamos a fazer as Caretas da Democracia, um tema completamente diferente, para um público também diferente com os políticos portugueses pós 25 de Abril; Mário Soares, Sá Carneiro, Cunhal, Cavaco, etc... Vamos ver se um livro fora do mundo do futebol "também vende". Infelizmente tudo anda à volta do "vender ou não vender".
Estas caricaturas que apresento neste post são algumas das minhas que vão estar patentes na exposição de Varsóvia (acho eu). Bem se não forem específicamente estas serão umas parecidas. As mais recentes estão melhores que as mais antigas. Dá para ver a evolução.
Na Polónia vamos ter conferências e palestras e também sessões de caricatura ao vivo. Não tenho bem a certeza porque algumas das instruções viream em polaco. Arrancamos 4ª feira dia 11 e regressamos domingo dia 15. Durante esse tempo este blogue vai estar "morto". Dos caricaturistas das caretas vou eu e o Carlos Laranjeira além do organizador Osvaldo Macedo de Sousa. O Ricardo Galvão fica em terra por motivos de agenda. Snif!

quarta-feira, 4 de março de 2009

Educação

Ai, ai, que falta faz a educação neste país. Já nem falo da educação escolar, falo principalmente da educação cívica. Não sei se é um sintoma de envelhecimento, mas cada vez utilizo mais, no dia a dia, uma expressão que era típica da minha avó: “Cambada de selvagens!” Aliás a minha avó limitava-se ao “selvagens!” eu é que acrescentei o “cambada”.

Outro sintoma de que o processo de envelhecimento está a decorrer na minha pessoa é o facto de achar que a juventude está perdida. Proclamo indignado, em alto e bom som que no meu tempo as coisas não eram assim, esquecendo-me completamente de que pertenci e pertenço à célebre “Geração Rasca”.

Ficou tudo muito escandalizado com a peixeirada na Escola Carolina Michaelis, com a cena da menina a pedir gentilmente o telemóvel de volta à professora. Eu também achei, numa primeira reacção, que tínhamos batido no fundo. Mas depois pensei calmamente sobre assunto, e pondo de parte este meu novo estatuto de homem sério, cheguei à conclusão que as coisas no “meu tempo” não eram muito melhores.

Assim de repente lembro-me de algumas histórias do tempo em que andei no liceu:
de uma explosão brutal que destruíu a casa de banho, meteu polícia e tudo; de um incêndio no ginásio provocado por dois alunos que não queriam ter ginástica sábado de manhã, mais uma vez meteu polícia; de um aluno chamado Piriquito, da minha aula, a pegar fogo ao cabelo de outra aluna chamada Leocádia; de uma bomba de carnaval a explodir enquanto se cantava os parabéns a um professor; de batalhas campais; de bombardeamentos aos professores com papéis molhados; das guerras de ovos, das fisgas, dos elásticos com grampos, etc, etc, etc.

Vendo bem, as coisas não estão piores. Se calhar até estão melhores. A diferença é que na altura não havia telemóveis para filmar os acontecimentos.

Fiz este cartoon para o Bronkit que vai sair em Março sob o tema “Educação”.